Iniciação esportiva de velejadores brasileiros: Um estudo qualitativo diagnóstico

Resumo de artigo

Maick Viana, Alexandro Andrade, Ricardo Brandt
Revista Brasileira de Ciências do Esporte, 2011

Esta pesquisa desenvolvida no Laboratório de Psicologia do Esporte e Exercício (LAPE) da Universidade Federal de Santa Catarina em 2011 teve como objetivo explorar as condições de iniciação esportiva dos velejadores de alto rendimento no Brasil, temática pouco discutida no campo das Ciências do Esporte e que segundo os autores possui grande relevância para o rendimento e detecção de talentos.

Metodologia

Os pesquisadores coletaram dados entre fevereiro e março de 2007 durante o Pré-Panamericano e Pré-Olímpico de vela, realizados no Brasil. Foram realizadas entrevistas semi-estruturadas individuais com velejadores brasileiros selecionados por conveniência e disponibilidade durante as competições.

Ao todo foram entrevistados 13 atletas, sendo 7 do sexo feminino (com idade média de 20 anos) e 6 do sexo masculino (idade média de 23 anos), de diferentes classes de vela.

O roteiro da entrevista abordava temas variados relativos à prática da vela, tocando o histórico particular de iniciação no esporte, razões que o(a) levaram a escolher a vela, primeiras competições, histórico de prática de outras modalidades esportivas. As entrevistas foram gravadas, transcritas e analisadas.

Resultados

Contato com várias modalidades esportivas na infância

A maioria dos participantes da entrevista relataram ter praticado uma grande variedade de esportes desde a infância além da vela. Alguns entrevistados se classificaram como “polivalentes” e versáteis em diferentes modalidades esportivas, desde as mais populares como futebol e vôlei até as consideradas mais elitizadas, tais como hipismo, hóquei e tênis.

Os pesquisadores observaram que a personalidade competitiva e a busca constante pela prática esportiva era um ponto em comum a vários entrevistados. Alguns também citaram grande interesse pelas aulas de Educação Física na escola, nas quais sempre foram bastante participativos.

O estudo observa que as condições destacadas pelos atletas de fato são as consideradas ideais para a iniciação esportiva das crianças. A literatura costuma sugerir que oferecer à criança uma grande variedade de experiências esportivas é mais benéfico do que condicioná-la a uma especialização prematura numa determinada modalidade. Deste modo garante-se que o jovem terá um desenvolvimento motor, intelectual, social e moral mais completo e será evitado que a criança abandone prematuramente a prática esportiva na qual ela porventura estiver especializada.

Os autores analisam que o grande repertório de atividades relatadas pelos entrevistados parece ter contribuído para o sucesso destes na vela e observam que a ideia de que “quanto mais cedo iniciar a prática melhor” nem sempre é verdadeira, já que estudos anteriores já verificaram que atletas adultos exitosos no esporte nem sempre obtiveram bons resultados nas categorias inferiores.

Assim, os autores propõem que a pergunta mais adequada para a iniciação esportiva infantil não seja “quando começar?”, mas sim “como começar?”.

Primeiros contatos com a vela

Grande parte dos entrevistados relataram terem iniciado a prática da vela por influência da família, ao acompanhar os pais ou outros parentes em navegações (esportivas ou recreacionais). Parte dos entrevistados não tinham velejadores na família, mas outras oportunidades foram essenciais para sua iniciação na prática. Em ambos os casos, o apoio da família foi percebido no depoimento de todos os velejadores.

Os autores observam que estudos precedentes já haviam analisado que o apoio familiar é um suporte essencial para a permanência de crianças e adolescentes na prática esportiva. Os pais podem servir de exemplo e fonte de estímulo e parece ser este o caso dos velejadores brasileiros.

Entretanto, alguns estudos citados no artigo apontam que a mesma família que estimula pode exigir demais das crianças em seu momento de iniciação, através de cobranças excessivas, expectativas irreais e atmosfera rígida. No discurso desses entrevistados, no entanto, não foram observados exageros dessa ordem na trajetória dos atletas.

Os voluntários que não apresentavam histórico de prática familiar da vela relatavam uma iniciação um pouco mais tarde do que os demais, chegando aos 13 anos. A literatura geralmente sugere que a iniciação esportiva não especializada aconteça a partir dos 6 anos, havendo também autores que defendam que esta se dê aos 7 ou 9 anos.

Alguns atletas que relataram influência da família descreveram ter seu primeiro contato com a vela muito cedo, aos cinco anos, acompanhando os parentes em passeios de barco.

O estudo também aponta que a oportunidade de contato com uma escola de vela também é um fator que culmina no interesse da criança pela modalidade, o que acaba não acontecendo muito frequentemente no Brasil, devido as poucas unidades de que se tem registro e ao investimento elevado necessário para fazer parte de uma escolinha desse esporte.

Prazer na prática da vela na iniciação

Quanto ao prazer relatado pelos participantes da prática da vela, a maioria declararam o gosto pela atividade desde a iniciação, que se deu por voluntaria e espontaneamente. Alguns deles, no entanto, contaram não terem iniciado na modalidade por vontade própria, mas foram apreciando com o passar do tempo.

O contato com a natureza e o gosto pelo mar foi um fator importante para os velejadores, embora alguns relatassem receio em praticar em regiões de água poluída. Também se destacou a possibilidade de fazer amizades, conviver e encontrar com amigos.

Houveram participantes que relataram só começarem a gostar de velejar quando começaram a fazer amigos. E também tiveram aqueles que afirmarem não terem, no começo, a vontade de competir, mas somente de passear, o que de acordo com os autores demonstra a indissociabilidade da iniciação esportiva infantil com o prazer na prática e o divertimento como dimensão essencial para a construção de uma iniciação esportiva para as crianças.

Notam os pesquisadores que o fato da maioria dos atletas terem iniciado a prática da vela de maneira lúdica e prazerosa, e terem chegado ao alto rendimento, mostra que mesmo quando se busca o rendimento a ludicidade é um fator que não necessariamente deve ser desprezada dentro do esporte. Sendo o lúdico um elemento que auxilia na manutenção da criança dentro do esporte e que, no caso da vela, parece ser um fator importante para o desempenho futuro dos desportistas, o que não deixa motivos para a sua exclusão do processo de iniciação.

Iniciação nas competições

O estudo observou que as competições de vela começaram cedo na iniciação dos participantes da pesquisa, na maioria dos casos ainda no primeiro ano de prática.

Os pesquisadores discutem que a a competição esportiva infantil faz parte da prática maioria dos esportes na atualidade. Tema controverso na literatura, há quem o defenda e quem o condena.

Os autores que condenam a competição na infância argumentam que com a valorização do resultado a prática perde em ludicidade, além dos prejuízos psicológicos trazidos pelo estresse e pela dificuldade em lidar com a derrota.

Já aqueles que defendem a competição na iniciação esportiva consideram que ela produz momentos de conhecimento e autoavaliação da própria criança, sendo um fator de motivação, de aumento do círculo social, de ação comunicativa e de interação com outros clubes, culturas e regiões do país.

Os autores deste estudo, todavia, analisam que a maior parte dos entrevistados relataram um envolvimento espontâneo e natural com as competições, mas ressaltam que todos os participantes foram indivíduos bem sucedidos no esporte e que há de se considerar que para outras crianças, o envolvimento com a competição pode não ter sido tão proveitosa.

Conclusão

O estudo conclui que na maioria dos casos, as crianças entrevistadas receberam apoio e/ ou influência da família para iniciar a prática da vela, de maneira direta ou indireta e que esta prática sempre esteve atrelada ao prazer de velejar e à espontaneidade de praticar e de envolver-se em competições.

Muitos tornaram-se velejadores ainda cedo e começaram a competir no seu primeiro ano de prática. Contudo, não relataram prejuízos ou mal estar quanto a esta precocidade. Além disso, os velejadores entrevistados relataram terem uma trajetória esportiva muito variada, passando por outras modalidades diversas e uma personalidade competitiva natural, sempre instigada à prática do esporte.

Fonte: VIANA, M.; ANDRADE, A.; BRANDT, R. Iniciação esportiva de velejadores brasileiros: Um estudo qualitativo diagnóstico. Revista Brasileira de Ciências do Esporte, v.33, n.2,p.283-301, 2011.

Demandas fisiológicas de diferentes técnicas da nova classe de Windsurf olímpico

Resumo de artigo

Physiological demands of different sailing techniques of the new Olympic windsurfing class
Oliver Castagna, Jeanick Bresswalter, Jean-René Lacour, Ioannis Vogiatzis
European Journal of Applied Physiology, 2008

Neste estudo publicado em 2008, pesquisadores gregos e franceses compararam as características de performance de duas diferentes técnicas de bombeamento da vela no windsurf olímpico: a primeira técnica, chamada de “antiga”, ativava principalmente grupos musculares dos membros superiores; a segunda, chamada de “nova”, consistia num bombear rítmico da vela, recrutando tanto grupos musculares da parte superior do corpo quanto da parte inferior. Além disso, a investigação procurou observar as demandas fisiológicas dos velejadores durante a execução de cada uma das técnicas.

Nove velejadores do sexo masculino, treinados para o alto rendimento, originários de seis diferentes países e com VO2 máx. médio de 65.1 ml min-1 kg-1 se submeteram a duas sessões de testes na água.

Os autores descrevem a nova técnica, a qual chamaram de pumping como uma manobra na qual o velejador empurra a vela ritmicamente, de modo que ela funcione como uma asa, cujo bombeamento aplica uma propulsão adicional à prancha, especialmente em ventos fracos e moderados. Segundo os pesquisadores, em estudos anteriores realizados em 2002 já havia sido observado que essa técnica aumentava a demanda cardiorrespiratória dos velejadores em até 3 vezes se comparada com a técnica antiga e exigia uma alta capacidade aeróbica que se refletia numa oscilação de VO2 entre 70 e 85% do máximo. Com a introdução da nova prancha Neilpryde RS:X nos Jogos Olímpicos de Pequim, o pumping apresentou uma demanda aeróbica ainda maior quando comparado com à Mistral, e neste novo modelo o VO2 dos atletas atingiu 80 ou 90% do máximo.

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Para os velejadores, a execução dessa nova técnica tem possibilitado um velejar mais rápido e em um ângulo mais fechado em relação à direção do vento. Isso significa um tempo menor para cobrir o percurso durante competições de distância. Para eles, a nova técnica é mais vigorosa e envolve tanto a musculatura superior quanto inferior do corpo.

Deste modo a pesquisa buscou confirmar se a nova técnica melhora a performance dos atletas em termos de velocidade e otimização do ângulo relativo da prancha com a linha do vento. Além disso, objetivou-se comparar as demandas fisiológicas das duas técnicas durante a performance dos atletas.

Materiais e métodos

Para a realização do estudo nove velejadores de windsurf de seis diferentes países foram recrutados. Todos eles figuravam no ranking dos 25 melhores atletas da ISAF na época da pesquisa. Suas principais características foram listadas na tabela abaixo. O estudo ocorreu em sessões em laboratório e na água. No laboratório os velejadores foram submetidos a um teste físico que lhes exigiu ao limite da tolerância. Na água, eles realizaram dois testes em velocidade de vento similares, um deles requerendo a execução da técnica antiga e o outro da técnica nova com uma velocidade de vento que variou de 8 a 12 nós.

Tabela 1. Características físicas e fisiológicas dos participantes

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Fonte: CASTAGNA et. al, 2008

O teste no laboratório consistiu em uma corrida em esteira com aumento gradual de velocidade a partir de uma velocidade inicial de 8 km/h. Nesta ocasião foi mensurado o VO2 máx dos velejadores, bem como a frequência cardíaca e a concentração de lactato sanguíneo. Três dias depois, ocorreu o teste da água no mar , em Hyeres, França, com condições de vento variando de 4 a 6m/s.

Foi requerido que cada velejador percorresse cerca de 1500m do ponto de partida (A) até o ponto de chegada (B), velejando contra o vento (orçado). Foi permitido aos velejadores a realização de apenas um bordo durante o velejo orçado (representado pelo ponto Z). Foi instruído aos atletas velejarem o mais rápido possível, reproduzindo as condições de provas e solicitado que eles bombeassem a vela frequentemente. Durante o teste na água foi mensurado o gasto energético, variáveis respiratórias e a concentração de lactato.

Figura 1. Zona de teste na água (Partida de A até B, com troca de bordo em Z)

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Fonte: CASTAGNA et. al, 2008

A técnica de bombeamento (pumping)

A técnica de bombeamento da vela requer uma sequência de movimentos. Acompanhando a figura 2a: Partindo de uma posição estável na prancha (1) o velejador flexiona seus joelhos e projeta seu corpo sobre o bombordo com os antebraços totalmente estendidos, partindo da articulação do cotovelo (2). Em seguida, o velejador puxa a vela com considerável força e empurra seu corpo para cima das suas pernas (3), retomando a posição inicial (4). Esta ação requer uma atividade explosiva dos grupos musculares superiores e inferiores.

Por outro lado, de acordo com técnica antiga (Figura 2b), o velejor inicia de uma posição estável na prancha (1) e empurra a vela para longe do seu tronco usando seus braços e a musculatura do core abdominal. (2). Depois, puxa a vela com bastante força até próximo do tronco enquanto retoma a primeira posição (3). Esta técnica de bombear envolve principalmente a musculatura superior do corpo, enquanto as pernas permanecem relativamente estáveis.

Figura 2. As diferentes técnicas de bombeamento (pumping) da vela. (A – técnica nova; B – técnica antiga)

VELA

Fonte: CASTAGNA et.al, 2008

Resultados

O estudo observou que a distância média percorrida a favor do vento durante o uso da nova técnica de bombeamento foi significativamente menor em comparação à distância percorrida durante a aplicação da primeira técnica. Além disso a velocidade da prancha quando performou a nova técnica foi consideravelmente maior se comparada à técnica antiga e o tempo que se levou para atingir a chegada (ponto B) foi significativamente mais curto com a nova técnica.

O VO2 máx dos velejadores, em termos absolutos também foram maiores durante a performance da técnica nova. De modo similar, durante a execução da técnica nova os velejadores também apresentaram taxas mais altas de ventilação, frequência cardíaca e pulso de oxigênio (índice da quantidade de oxigênio extraído com cada pulso).

Entretanto, não houve diferenças significantes entre as duas técnicas no que disse respeito ao gasto energético e à concentração de lactato sanguíneo.

Conclusão

O estudo observou que a nova técnica de bombear a vela aplicada ao windsurf RS:X aprimora suas características de desempenho, permitindo que a prancha veleje mais rapidamente e em um ângulo mais próximo à linha do vento.

O tempo necessário para atingir um ponto alvo na água é, portanto, mais curto com a nova técnica em comparação com a técnica antiga. Embora as demandas cardiorrespiratórias da nova técnica de bombeamento sejam maiores em comparação às da antiga, presumivelmente devido à maior atividade muscular necessária, o gasto energético total e a concentração de lactato no sangue após o teste não são diferentes entre as duas técnicas.

Comparada a vela Mistral Olympica, a nova Neilpryde RS:X é mais longa, rígida e tem a área vélica 28% maior. Os velejadores, portanto, desenvolveram uma técnica de bombeamento que lhes permite gerar energia suficiente na vela maior e mais pesada para assim, terem um aumento da propulsão da prancha em ventos fracos e moderados.

Para gerar energia suficiente nesta vela maior, a nova técnica recruta uma porção maior de músculos do corpo, que funciona como uma mola que comprime e armazena energia para em seguida liberá-la em ataques rápidos e explosivos da parte superior e inferior do corpo.

No que diz respeito à técnica antiga, estudos como o de Buchanan et. al (1996) e Dyson et . al (1996) mostraram que a atividade muscular dos músculos inferiores do corpo representava um terço da registrada na parte superior.

Embora no presente estudo não existam dados eletromiográficos disponíveis para comparar o grau de atividade muscular da parte superior e inferior do corpo entre a antiga e a nova técnica, as diferenças significativas nas respostas fisiológicas entre as duas técnicas são indicativas de maior atividade muscular no corpo inteiro, enquanto usando a nova técnica.

De fato, os valores médios de captação de oxigênio, freqüência cardíaca, pulso de oxigênio e ventilação por minuto foram significativamente maiores com a aplicação da nova técnica ao passo que o gasto energético na performance da nova técnica foi 10% maior se comparado à antiga.

A descoberta mais intrigante deste estudo é que as duas técnicas apresentaram registros quase idênticos em termos de gasto total de energia e concentração de lactato no sangue após o teste, mas o emprego da nova técnica fez a prancha navegar cada vez mais rápido em direção à chegada.

Desta forma, é aconselhável que os praticantes de windsurf empreguem a nova técnica, pois é mais benéfica em termos de desempenho da prancha, ou seja, a prancha desenvolve maior velocidade, o que provavelmente permite apontar para mais perto da direção do vento.

Isso significa efetivamente que, durante a navegação a favor do vento (quando a marca do alvo está localizada na direção do vento, exigindo que a prancha navegue em um ângulo de aproximadamente 40 em relação à direção do vento), a distância que a prancha deve cobrir é menor ao empregar a nova técnica.

No presente estudo, o tempo necessário para navegar no curso da perna contra o vento foi meio minuto mais curto quando os marinheiros empregaram a nova técnica em comparação à antiga. Se considerarmos que, em uma regata típica de vela, os navegadores precisam competir por 30 a 40 minutos, dos quais aproximadamente 20 minutos são dedicados à vela contra o vento, pode-se educar que o emprego da nova técnica de bombeamento de vela pode dar uma vantagem superior a um minuto ao velejador.

Foi confirmado que o bombeamento de vela na nova prancha Olímpica RS:X está associado a um alto requisito tanto nas vias metabólicas aeróbias (80% máx) quanto nas anaeróbias. De fato, a captação média de oxigênio em termos absolutos indica que o bombeamento de vela usando a nova técnica é tão fisicamente exigente quanto outras atividades esportivas altamente aeróbicas, como crosscountry, remo e maratonas.

A alta concentração de lactato no sangue (9,0 mmol l-1) registrada em 3 minutos de recuperação, é explicada pelo fato de que a intensidade do exercício na água estava acima do limiar anaeróbico dos velejadores, conforme havia sido determinado durante o teste no laboratório. Dado o período de tempo (7min) durante o qual o bombeamento de vela foi realizado, os valores de lactato no sangue sugerem envolvimento substancial do metabolismo anaeróbico. Com base nessa observação, é provável que durante uma regata típica, com duração de 30 min, a acidose láctica possa apresentar um fator limitante ao desempenho muscular.

FONTE: CASTAGNA, O.; BRESSWALTER, J.; LACOUR, J.R.; VOGIATZIS, I. Physiological demands of different sailing techniques of the new Olympic windsurfing class. European Journal of Applied Physiology, n.104, p.1061-1607, 2008.

Riscos à saúde associados à prática do Windsurf em águas poluídas

Resumo de artigo

Health Hazard associated with Windsurfing on Polluted Water
Eric Dewailly, Claude Poirier, François M. Meyer
American Journal of Public Health, 1986

Num estudo publicado em 1986 no American Journal of Public Health, três pesquisadores canadenses verificaram incidência de sintomas de doenças associadas ao contato com água poluída em velejadores de windsurf que participaram do Campeonato do Hemisfério Oeste, realizado na baía Beauport, em Québec, em agosto de 84.

A investigação procurou comparar se os riscos aos quais os windsurfistas se submetiam ao velejar em água poluída eram similares àqueles já conhecidos na natação. Foi concluído que tanto a natação como o windsurf expõe os indivíduos aos mesmos perigos à saúde.

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Metodologia

Amostras de água foram retiradas de oito pontos da área de competição apontando que o nível de coliformes fecais e de bactérias enterococcus estava acima dos limites aceitáveis, já que a baía recebia dejetos do esgoto local.

Em 9 dias de competição, 160 velejadores passaram pelo local de prova, sendo que a população exposta consistiu num total de 84 atletas que participaram das provas finais por 9 dias. Os 41 funcionários escalados para trabalhar durante a competição foram adotados como grupo controle. No período do Campeonato, tanto atletas como a população controle fizeram as mesmas refeições, não havendo distinção na alimentação dos dois grupos.

A metodologia da pesquisa contemplou a aplicação de um questionário abordando a ocorrência de alguns sintomas. Atletas e grupo controle responderam a esse questionário no último dia de provas. A ocorrência de sintomas foi verificada em dois períodos de tempo: dois meses antecedentes à competição e durante os nove dias de provas.

Resultados

Em média, os competidores tiveram 21 horas de corrida e 18 quedas na água. A tabela 1 apresenta os riscos relativos de exposição à água poluída. 45 competidores e 8 empregados reportaram pelo menos um dos sintomas relacionados.  A ocorrência de sintomas de infecção na pele, otite e conjuntivite também foi elevada.

Tabela 1 traduzida
Fonte: DEWAILLY et.al. (1986)

A relação entre o número de quedas na água e o índice de riscos relativos foi diretamente proporcional. Competidores que relataram maior número de quedas também relataram maior quantidade de sintomas. Os sintomas ocorreram em todos os 10 competidores que caíram mais de 30 vezes. Em contrapartida, somente 44% daqueles que caíram 10 vezes ou menos foram afetados. 4 de 10 empregados que velejaram ocasionalmente na baía de Beauport desenvolveram sintomas durante o período do estudo.

Tabela 2 traduzida
Fonte: DEWAILLY et.al. (1986)

Os resultados avaliados neste estudo não foram diagnosticados clinica ou microbiologicamentSELRES_145f8425-1459-44a8-8954-ef5e043dce96SELRES_5c2ecc89-2847-4426-9d05-59b50d3b7545SELRES_e37b6400-0786-4447-8713-777e52a410e4SELRES_e37b6400-0786-4447-8713-777e52a410e4SELRES_5c2ecc89-2847-4426-9d05-59b50d3b7545SELRES_145f8425-1459-44a8-8954-ef5e043dce96e. De 28 competidores que especificaram a data de ocorrência dos sintomas, 4 relataram ocorrência durante os primeiros dois dias do evento. A incidência de doenças transmitidas pela água com grande período de incubação, como hepatite, não foi investigada.

Conclusão

De acordo com o estudo foi observado que a exposição à água poluída por esgoto aumentou as chances de apresentar sintomas gastrointestinais, dado já constatado entre nadadores. Isso pode ser explicado pelo alto nível de poluição da água e do contato repetitivo que os atletas tiveram com ela durante os 9 dias de competição.

Os pesquisadores ponderaram que o estresse pela competição ou algum aspecto não controlado na dieta dos atletas poderia ter influenciado no surgimento dos sintomas relatados. Entretanto, velejadores profissionais estão melhor preparados para enfrentar as tensões emocionais de uma competição, e foi concluído que essas influências não foram relevantes.

Assim, ficou evidente que tanto velejadores de windsurf como nadadores estão expostos aos mesmos riscos à saúde quando em contato com a água poluída. O risco será mais alto para velejadores não profissionais, que tendem a cair mais vezes na água.

Fonte: DEWAILLY, E.; POIRIER, C.; MEYER, F.M. Health Hazards Associated with Windsurfing on Polluted Water. American Journal of Public Health, Washington, Vol. 76, N.6, p. 690-691, 1986.